Proposição artística: Solidão no fundo da agulha – Ignácio de Loyola Brandão

Fotografia: Julia Muxfeld

    Antonio Candido diz que a crônica não é a escrita do alto da montanha, mas a do rés-do-chão. Antonio Prata, escalando a mesma metáfora, escreve que os poetas são muito mais hábeis para chegar, com dois ou três pontos de apoio, ao cume de abstrações como o amor, o perdão ou a saudade: o cronista é um pedestre.

    Foi a crônica que, caminhando e contando histórias de Araraquara, abriu a Semana Sesc de Leitura e Literatura 2018. O escritor Ignácio de Loyola Brandão e a atriz Rita Gullo apresentaram o espetáculo “Solidão no fundo da agulha” no dia 24 de abril. No enredo de cada crônica narrada pelo autor, uma música, interpretada por Rita. Os textos integram um livro homônimo, que reúne crônicas e contos escritos a partir de canções alojadas na memória do cronista.

    As histórias começam nas ruas do interior de São Paulo, num caderno em que a professora do menino Ignácio pede que seja registrado tudo o que lhe desperte os olhos.  Entre esquinas e coisas insuspeitas, o escritor vai se fazendo, observando as janelas que conversam, a luz do cinema, as agulhas de tricô afastando a solidão, os dias. Na praça da cidade pequena, ele vê um casal dançando a Valsinha de Chico Buarque e Rita canta.   

    Candido diz que a crônica fala de perto. Bom ouvir a crônica falando, o escritor falando a crônica, tornando o palco italiano uma janela florida, uma varanda. É da crônica a busca pela oralidade, pela simplicidade das palavras descascadas. E as crônicas do livro chegam à cena assim, faladas. Em modulações próprias do oral, as narrativas são pausadas pelas reticências das memórias, cruzadas em ziguezague pelos adendos da conversa.

    Rubem Braga, dos maiores cronistas brasileiros, responde ao pedido de definição do gênero: “Se não é aguda, é crônica”. É no chão não agudo de uma escola que Ignácio narrador e autor conta a última crônica: uma história em que, jovem, inventa resposta a uma equação matemática e ganha dez pela imaginação. No exercício de observar e imaginar o cotidiano, a crônica segue, enquadrando, num mesmo texto, a solidão e a agulha, ou (como quer Prata) o Coliseu e o pipoqueiro da calçada da frente.

Texto escrito para o blog Parágrafo Cerrado, a partir da programação da Semana Sesc de Leitura e Literatura, realizada entre os dias 24 e 29 de abril de 2018, no Sesc Arsenal.

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