Proposição artística: Factóide (Cena Livre – UFMT)

Foto: Marcella Gaioto.

Por: Aline Wendpap

Uma mulher sentada atrás de uma pequena mesa manuseia um bloco de argila (seria uma referência ao filme Ghost?), ao mesmo tempo em que degusta taças e mais taças de vinho (reforçando a ideia de que ela deseja esquecer algo), seu silêncio parece querer dizer muita coisa, mas devido a manutenção deste, a leitura possível ocorre apenas pela observação de gestos, olhares e ainda pela maquiagem (assinada por Leandro Brito), que denota o estilo futurista da narrativa. Esta é Angélica (Fabíola Karen), que de angelical não tem muita coisa, como se percebe no decorrer da peça.

De repente black-out e adentra a cena, a segunda personagem chamada Gab, que pela voz peculiar é uma robô ou humanoide, interpretada com afinco por Ana Carolina de Mello. Desta vez, o silêncio dá lugar a uma verborragia enlouquecedora e atordoante, deixando a plateia por vezes confusa a respeito da noção tempo/espaço.

Isso talvez seja um dos propósitos da dramaturgia de Lucas Lemos, que além de assinar o texto de FACTÓIDE, sobe ao palco como Arcanjo (o único homem em cena) e ainda dirige o espetáculo com as contribuições de: Leandro Brito, Benone Moraes e Eduardo Butakka.

A iluminação de Priscila Freitas, executada no dia 13/12/17 por Pedro Agnolon é um espetáculo à parte e reforça em muitos aspectos a “pegada” tecnológica presente no futuro distópico imaginado pelo dramaturgo. Já que o cenário, apesar de bem composto e equilibrado é no geral bastante familiar quanto aos móveis e estilo, excetuando-se aí o computador (grande chamariz), que literalmente possui “luz própria”.

Se for levado em conta que, o Auditório do Centro Cultural da UFMT não é nem de longe, uma caixa cênica, a somatória a apresentação torna-se ainda mais positiva. E é bastante perceptível a familiaridade do elenco com o local, provavelmente devido às oficinas do Cena Livre (o lindo trabalho de um grupo, em seu habitat!). Isso também parece ter contribuído para a construção cenográfica (que o aproveitou o palco “diferentão” de modo interessante).

Este é um espetáculo em que podemos perceber todos os elementos, que compõem uma cena, trabalhados em seus mínimos detalhes. E, detalhe, todos os atuantes são estreantes.  Que tenhamos mais estreias assim. Evoé!

Texto escrito para o Parágrafo Cerrado a partir da programação de mostra de cenas curtas do projeto de extensão Cena Livre, realizado na UFMT, no dia 13 de dezembro de 2017.

 

 

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