Proposição Artística: Curta-metragem Aquele Disco da Gal (Diego Baraldi e Juliana Curvo)

Por André Ferreira

No dia 24 de novembro foram lançados no Cine Teatro Cuiabá um piloto de série de TV e quatro curtas metragens realizados por meio do Edital de Desenvolvimento de Obras Audiovisuais da Secretaria do Estado de Cultura de Mato Grosso, proveniente da parceria com a Ancine e o Fundo Setorial do Audiovisual. Antes das exibições, Leandro Carvalho, atual responsável pela pasta no Estado, mencionou ‘a emoção de ver Cuiabá na tela grande’. Tomo essas palavras de Leandro pra falar de umas das qualidades que me encantaram no primeiro dos curtas exibidos, “Aquele Disco da Gal”.

Assistir a uma história que se passa no Rio de Janeiro ou em Nova York é uma coisa. Pra mim, que sou daqui e conheço bem a capital, ver Cuiabá como cenário de uma trama foi uma experiência ímpar. Impregnou-me de uma familiaridade, uma comunhão, que só contribuiu pra minha identificação com os personagens.

Ainda assim, as cenas não são forçosamente situadas em cenários tradicionais como se houvesse necessidade de afirmar uma regionalidade ao filme. Juliana Curvo e meu querido professor Diego Baraldi, os diretores do curta, não se viram obrigados a isso. Cuiabá está lá, bem presente. Pra mim, então, muito: já andei à beça de patins pela Arena Pantanal, onde a jovem Natália (Gabriela Iaia) anda de skate; já subi várias vezes, no caminho pra escola, a rua por onde ela e a mãe (Tatiana Horevitch) descem de carro conversando sobre a família; e o mini estádio onde o pai (Luciano Bertoluzzi) tem um encontro amoroso é aqui do lado da minha casa, no ‘distante CPA’.

Mas o uso desses espaços se dá de forma orgânica, integrada à história. A cena final, por exemplo, que toma em plano aberto parte da cidade, revela mais do que a beleza do local ao amanhecer do dia. O que nos arrebata é o sentimento do personagem andando por aquela rua depois do redemoinho de sensações libertadoras que ele viveu na madrugada, da festa onde esteve ao encontro com a filha e a ex-mulher, onde foi presenteado com a certeza de que tudo vai ficar bem. Os aplausos vieram de forma imediata ao final por que o filme conseguiu nos comunicar essa emoção.

Essa organicidade no uso dos espaços dá à trama uma roupagem universal que lhe cai muito bem. Afinal, o curta se apropria de temas que ultrapassam fronteiras, como a sexualidade. Na história, uma família vai se ajustando a uma nova configuração depois que a mãe sai de casa pra viver com outra mulher. A casa, aqui, é um apartamento, cenário também usado com maestria por Marcelo Biss, o diretor de fotografia: o enquadramento a partir do teto do quarto, por exemplo, não apenas dribla o problema de espaço para situar a câmera e os personagens na cena como também registra com beleza a integração entre o pai e a filha.

Destaco ainda o uso discreto da trilha sonora e, portanto, a confiança dos realizadores nas imagens e nos atores pra emocionar o público. E encerro aplaudindo a simplicidade e, ao mesmo tempo, potência do roteiro. Não se trata de um filme de grandes reviravoltas ou rompantes de dramaticidade. Tudo é conduzido com leveza e com o mínimo necessário de cenas. É um curta enxuto e conciso. Mas também tocante: do novo dia a dia que aquela família está aprendendo a viver e das descobertas dos personagens sobre si emerge uma emoção genuína, que vem do identificável. E Cuiabá servindo como cenário universal facilita ainda mais, pra nós, essa identificação. Num contexto maior, que ultrapassa o próprio filme, simboliza o amadurecimento da nossa indústria de audiovisual.

Texto escrito para o Blog Parágrafo Cerrado, a partir da programação do lançamento das produções audiovisuais do Box de Curtas, realizado no Cine Teatro Cuiabá em 24 de Novembro de 2017.

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