Proposição artística: A Gente Nasce Só de Mãe – curta-metragem de Caru Roelis

Fotografia: Arquivo

A Gente Nasce Só de Mãe é o curta-metragem de estreia de Caru Roelis na direção e Edilaine Duarte no cinema. O elenco conta também com Bia Corrêa,
Juçara Naccioli e Patrícia Gibson, atrizes que muito orgulham Cuiabá.

            No curta, Emily Barbosa (Edilaine Duarte) é uma mãe adolescente que altera suas jornadas diárias entre cuidar do filho e do irmão – que, sem restar outra alternativa para falta de dinheiro, imerge no mundo do tráfico para conseguir ajudar nas despesas da casa –, terminar o ensino médio durante a noite, junto a sua amiga Sabrina (Patrícia Gibson) e cuidar de sua mãe (Bia Corrêa) que sofre nas mãos de um namorado violento.

O filme acessa o espectador o tempo todo, pela sua grandiosa capacidade verossímil: é possível ver e se reconhecer no desenrolar da narrativa, seja pelo belíssimo trabalho do elenco, que se conecta afetivamente com o espectador em poucos minutos do filme, pela impecável direção de arte – que fez um primoroso trabalho, buscando a Cuiabá real, sem qualquer tipo de rodeios ou romantizações hollywoodianas – ou ainda pelo retrato fiel do que é ser uma mãe adolescente da periferia. O filme representa.

A Gente Nasce Só de Mãe consegue sintetizar as várias questões que rodeiam a mãe adolescente e não deixa a desejar em nenhuma delas: a narrativa é conduzida com tamanha maestria que, de forma precisa, apresenta apenas aquilo que é necessário a completude da obra. Não há excessos. Um filme em que a expectativa do ritual é a parte mais dolorosa, pois quando os vestígios do que pode acontecer vão se revelando, os afetos que os espectadores desenvolvem pela personagem principal vão se tornando mais fortes, como se todos soubessem o que vai acontecer, mas se negassem a acreditar. É um filme que você chora antes, como se não desejasse nenhum mal para a vida de Emily..

Edilaine Duarte, além de atuar em teatro e performance, presenteia a classe artística de Cuiabá com sua simplicidade. Revela o que tem de melhor, numa atuação com sobriedade e profundidade, atingindo o essencial no espectador. É no simples que você encontra Edilaine Duarte, e é este simples que faz com que você se apaixone desde o primeiro minuto do filme.

O trabalho de pesquisa e produção é notável: o filme é um produto completo e não precisa de mais nada. A temática – baseada em eventos reais – é uma de suas potências que se constrói numa perspectiva realista e visceral, retratando a vida como ela é. É perceptível o empenho da produção em não buscar o que o circuito comercial de cinema mais quer: um filme com todos os clichês possível, com um roteiro romântico e um final feliz. Caru Roelis entregou para Cuiabá e Mato Grosso um filme essencial, mostrando o potencial de sua direção e ainda, conduzindo um grande elenco a um fechamento dramático que é um tapa na cara do espectador. Não tem final feliz. Essa é a recompensa por anos de omissão, violência, de desespero. É a manifestação pura da violência gerada pela sociedade de ausências, construída pelo patriarcado.

A Gente Nasce Só de Mãe é uma obra que revela a força do investimento em mulheres a frente de grandes produções. Sem dúvida, um filme para recomendar com orgulho para quem quer que seja.

Texto escrito para o Blog Parágrafo Cerrado, a partir da programação do lançamento das produções audiovisuais do Box de Curtas, realizado no Cine Teatro Cuiabá em 24 de Novembro de 2017.

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