Proposição artística: Círculo de Mulheres com Thereza Helena, Juliana Graziela, Millena Machado e Maria Clara Bertúlio ( Cuiabá MT)

Fotografia: Pedro Ivo

Paragrafadora: Janete Manacá

         Quinta-feira, 9 de novembro de 2017, fora um dia de muito labor e cansaço. A rotina entediante prenunciava um final como tantos outros, não fosse a surpresa que me reservava aquela noite.

      Todas as quintas, no imenso espaço aberto do SESC Arsenal de Cuiabá, acontece o famoso Bulixo: Feira de Variedades que conta com um abundante cardápio, de culinária regional e artesanatos diversos, além do bar com musica ao vivo. Famílias de vários bairros da capital e cidades vizinhas, após o trabalho, têm encontro marcado ali.

        E foi exatamente nesse cenário, em meio a um aglomerado de pessoas de todas as idades, que eu as encontrei. Um círculo de mulheres! Eram quatro anciãs, detentoras de uma fisionomia marcante que denotava certo ar de sabedoria milenar. Centradas e serenas demarcavam cada passo naquela ciranda viva e pulsante.

        A preta velha Rosita, com seu ramo de arruda nas mãos, trazia a frequência de humildade. Com o coração pleno de afetividade benzia, expulsava o mal e abençoava a todos que passavam pelo círculo.

        A Pachamama, grande mãe universal – a própria terra, trazia em si a doçura do amor incondicional. É ela a guardiã das sementes sagradas! Em seu ventre ampara as sementes que, após o processo de metamorfose, chegam em nossos lares e nutrem o nosso ser divino.

        A Índia Ró guerreira, mulher de energia vital, é protetora do solo sagrado. Com seu chocalho mágico invocava os poderes curativos herdados dos ancestrais, muitas vezes adormecidos em nós.

        A Xamã Epifânia, mulher de sabedoria milenar, cega de um olho, apoiada em seu cajado, movimentava a roda com tamanha força amorosa que fazia vibrar os nossos corações.

        A força maternal do feminino sagrado, que habitava aquelas incríveis mulheres, no círculo vivo, aflorava memórias e despertava em cada feminino ali presente, o desejo de desatar os elos que nos prenderam à escuridão de tempos sombrios. Reintegrar a totalidade: eis o desejo que agora pulsa dentro de nós!

        Elas cantavam como quem carregava o mundo no útero. E nessa energia circulante espalhavam luz a todos os seres viventes que integravam aquele lugar. Ainda sinto o toque sagrado do raminho de arruda tocando no meu chakra frontal, expulsando energias negativas e toda a sujeira astral. Por certo, eram aqueles ramos parte das ervas curativas cultivadas em seus quintais.

        A performance arrebatou-me pela simplicidade e delicadeza. As atrizes Thereza Helena Nunes, Maria Clara Bertúlio, Millena Machado e Juliana Graziela nos apresentaram o melhor da arte: a arte curativa, tão necessária em dias obscuros pelos quais estamos passando. Para se ter uma ideia, no Brasil, atualmente, 12 mulheres são mortas por dia, vítimas de violência doméstica.

        Com o corpo arrepiado de emoção e a alma transbordando de gratidão eu me curvo ao infinito para reverenciar a beleza poética e a coragem artística destas atrizes que, sob a proteção da lua cheia, nos propiciaram este encontro milenar. Benditas sejam vós meninas estrelas por espalharem com arte cura e energia vital.

        Seus cantos ainda reverberam dentro de nós como um pedido solene de despertar consciencial. É necessário que este círculo percorra o mundo e que cada ser faça a roda movimentar-se na força dos quatro elementos. É hora de abandonar a trilha das lagrimas, colocar o xale e voltar para casa. O amor precisa urgentemente habitar o coração do Planeta Terra.

        Para finalizar, eu me coloco na posição oeste da roda da cura: lugar da mulher, lar de todos os nossos amanhãs… para reverenciá-las e aplaudi-las!

Texto escrito para o blog Parágrafo Cerrado a partir da programação da Semana de Formas Animadas do Sesc Arsenal de 07 a 12 de novembro de 2017.

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