Proposição artística: Quando você chorava lendo o Pequeno Príncipe, Grupo Primitivos  (MT)

Por  Dheysiel Barbosa

 

– Café?

– Sem açúcar por favor.

Lembrar das pessoas e do que elas nos deixam é bom. Lembrar assistindo um espetáculo tão lindo como “Quando você chorava lendo o Pequeno Príncipe”, do grupo Primitivos é emocionante. Tem texto e direção de Wanderson Lana e faz uma homenagem ao querido Flores, Anderson Flores.

Somos instigados a lembrar dos olhos verdes, verdes como a uma nota de um real, nota que era e que já não é mais, como Anderson. Verdes como a grama, grama que deitamos e descansamos olhando o céu. Verdes como lagarta, que se reinventa após a metamorfose, alçando voo para outros lugares. Verdes olhos verdes.

Os atores dominam o espaço com uma partitura corporal elaborada, mostram-se engajados nessa saudade encenada. A cada ação, vamos nesse lindo barco verde, que viaja pelas imagens que temos de Flores, imagens formadas no corpo do elenco.

A trama vai caminhando para o campo do sofrer, onde a ofegante respiração dos atores nos coloca em um lugar dolorido. Assim como foram os últimos dias dele…. O café é oferecido aos presentes, como sempre era oferecido por Flores aos conhecidos. Ah, tinha que ser sem açúcar, “Como as pessoas tomam café com açúcar?!” dizia ele.

Um pote de vidro passeia pelas mãos do elenco, pra lá, pra cá. Sem medo da queda, eles dançam com o frágil pote. Que também se transforma em um desfibrilador, o vidro frágil tenta reanimar, para que o espetáculo da vida continue. Sem êxito. O vidro frágil chega as mãos de uma atriz que esta no alto e o pote cai, se despedaça, se quebra, se foi… agora em cacos, em pedaços, em pequenos pedaços. Seria assim a vida? Um frágil pote de vidro que se despedaça?

A coreografia permanece por um tempo, mas agora um outro plano de cena, a frente, ao lado, ao fundo, frases que queriam ser ditas, mas não foram. Os abraços tem uma potencia de fazer chorar, mesmo estando apenas na encenação. Passando o tempo das palavras vem o tempo do silêncio, que é quebrado pelos risos dos atores, que se expande por todo o espaço. E chega como uma sensação de calma até os espectadores.

Flores sai caminhando como um passear por entre as flores, que estava pelo palco. Assim deve ter sido o seu caminhar nessa nova dimensão, pelas flores, por entre as flores e em flores. Abraços, lágrimas e palavras de amor, encerram a cena, mas não a lembrança, agora a cena continua em outro lugar, em outro tempo, continua com o pequeno príncipe em algum lugar, sorrindo com os verdes olhos, com uma xícara de café, sem açúcar, nas mãos.

Texto escrito para o Blog Parágrafo Cerrado, a partir da programação do XI Festival Velha Joana, de Primavera do Leste, de 03 a 12 de Novembro

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