Proposição Artística: PARA ELISE, Grupo Quimera

Por Caio Ribeiro

Foto Fred Gustavos

 

          Para Elise é um espetáculo de teatro e dança do grupo Quimera, do Primavera 3 da cidade de Primavera do Leste. A direção é de Daniel Whittemore.

          Primavera do Leste é um fenômeno do teatro Mato-grossense, principalmente porque é extremamente comum ver jovens com beirando os 13 anos que fazem mais de 5 anos de teatro. Estudam, pesquisam e apresentando, construindo cada vez mais um teatro fortalecido pela juventude.

          Para Elise é um espetáculo de muito poder visual e corporal. A unidade dos figurinos que se aproveitam da matéria do tecido para projetar imagens e sons nos remete aos experimentos de corpo e matéria de Pina Bausch – inclusive, o diretor disse Pina foi uma das artistas pesquisadas pelo elenco.

          As questões que o espetáculo aponta vão do mais subjetivo e interior, ao mais externo e visceral, sempre permeando o núcleo duro: a violência contra LGBT. A violência simbólica, psicológica e principalmente o abandono e a não aceitação. Uma obra que permite uma fácil conexão afetiva, especialmente para quem também já sofreu com este tipo de violência.

          O espetáculo usa balanços em níveis diferentes como uma das máquinas de cena que os atores e atrizes interagem, o que dá uma ideia de movimento constante, ganhando rapidamente a atenção do público seja pelo interesse em ver os movimentos acrobáticos criados ou pela leve tensão gerada ao medo de algum deles cair. E essa (a)tensão é um ponto forte do espetáculo, pois altera a experiência do ver a obra e desenvolve uma relação de cuidado com o elenco, que se reforça ainda mais nas cenas dramáticas.

          Para compor a visualidade da obra, os atores criam imagens a partir de exercícios físicos mesclando os corpos. Neste ponto, a repetição serve de disparador para potencializar a cena. Somando tudo a isso, a sonoplastia com músicas nacionais e internacionais preenche com a melodia e em algum grau, uma dramaturgia.

          É realmente espantoso – no sentido mais positivo da palavra – assistir a um espetáculo dirigido por um jovem de 19 e um elenco que varia de 13 a 17 com tamanha qualidade, tanto na execução quanto na pesquisa, e sobretudo no tema. É confortante saber que a juventude está presente no teatro de Primavera do Leste e anseio para assistir essa juventude tomando conta do teatro de Mato Grosso.

Texto escrito para o Blog Parágrafo Cerrado a partir da programação do XI Festival Velha Joana, de Primavera do Leste, no período de 03 a 12 de novembro de 2017. 

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