O QUARTO DIA DO VELHA JOANA

Por: Caio Ribeiro e Dheysiel Barbosa

Fotos e montagem: Fred Gustavos

A programação do XI Velha Joana trouxe um pouco mais de vida para Primavera do Leste, especialmente com os trabalhos da Mostra Panorama (espetáculos da cidade), que contavam com apresentações que vão desde a caixa cênica tradicional, até espetáculo brechtiano em site-specific. É impressionante e admirável a revolução que o teatro Faces faz na arte cênica da cidade e, sem sombra de dúvida, do Estado. O trabalho continuado de teatro é indiscutivelmente primoroso. Um orgulho acompanhar os alunos e alunas neste processo tão importante.

O primeiro espetáculo do dia, O Assassino da Luva Amarela, do grupo Faces Jovem em parceria com o Projeto Black, é um trabalho que transporta o público para as aventuras de mistérios e investigações da saudosa coleção Vagalume. Existe um charme especial na obra, principalmente para quem devorava os livros da coleção durante a infância e juventude, pois aproxima o sentimento de nostalgia, permitindo um (re)visitar das mais perigosas e excitantes aventuras nas páginas do livro, mas não só como saudosismo, o espetáculo apresenta o conflito no tempo que deve ser. Coloca em questão as pautas da juventude de hoje, suas características, gírias, gostos, de maneira quase que verossímil, como se as historietas da coleção vagalume ganhassem vida nos dias de hoje, atenta a todas as questões da juventude atual.

O segundo espetáculo do dia, da Companhia Circo Le Chapeau foi o espetáculo circense Tradicional Pocket Show. O Circo em todas as suas manifestações sempre encanta crianças, jovens e adultos. O Riso não tem idade. Em cena, dois palhaços e uma bailarina, apresentados em rápidas esquetes, além de quadros de acrobacias e malabares fizeram lembrar quando o circo chegava às cidades, com todos os seus encantos e novidades causando a sensação em quem viu, de estar na plateia de frente a um picadeiro, com muitas crianças que sorriam e pediam para entrar no jogo dos dois palhaços.

Um instante de encantamento que fez brilhar os olhos de quem assistia, foi quando um palhaço e uma bailarina, se juntaram em um romance apresentado com graça, leveza e amor. Vimos um palhaço, que pouco antes era desajeitado, entregue aos passos de uma coreografia de olhares com a moça da sapatilha de ponta. Nesse momento, o silencio e a música do bailar, foram as únicas coisas que habitavam aquele espaço. Todos concentrados, pois um piscar de olhos poderia pôr a perder a magia presente naquele palco.

A plateia se torna importante à medida em que a sonoplastia aumenta, pois ela completa o som com as palmas. Um garotinho de uma escola convidada, foi chamado ao palco sob a tarefa de defender o palhaço, que agora estava sobre os ombros do seu amigo de cena, para que este não caísse. E o garotinho aparentemente frágil e menor diante a estatura do palhaço que deveria guardar, se mostra forte, à medida que desempenha com maestria, quem olhasse para o seu rosto fazia a leitura de sua expressão que dizia “Sim eu posso segurar esse palhaço, sim, eu consigo”. Esse rapazinho nos ensinou muito… E assim, encerra o espetáculo, com risos e palmas de quem entrou e saiu com uma lição: Em tudo que se fizer, sorria antes. Em tudo que se fizer, sorria durante. Em tudo que se fizer, sorria depois…

          Lampião e Maria Bonita, do Grupo Giro de Teatro é um espetáculo que transporta o púbico para um sertão fabular, narrando graciosamente a história de amor e guerra de Lampião e Maria Bonita. Uma característica virtuosa da obra é a capacidade de transformação da linguagem, abordando a sanguinolência de Lampião, por exemplo, numa confortante batalha de poesias. Afinal, que arma mais potente poderiam usar os cangaceiros, senão o cordel? A condução da narrativa é graciosa, não só pelas boas escolhas da direção, mas pela idade dos atores e atrizes num nível excelente de teatro, o que faz com que a experiência do espetáculo seja transformada – não que seja permitido errar porque são novos, mas que qualquer falha seria desconsiderada de imediato, pelo simples fato de ser extraordinário ver crianças tão novas já tão preenchidas pelo teatro.

          O espetáculo O Rei e o João Grilo, da cia Olha Nós Dali é um passeio pelas historietas de adivinhação. O personagem quase folclórico de João Grilo ganha vida nesta peça que apresenta um Sertão Maravilhoso, com Rei, Rainha e Guilhotina. Na história, a jornada do herói é acompanhada de vários personagens e situações que João Grilo resolve a sua maneira, e comprova que sua esperteza também é matéria da sabedoria, conseguindo responder – a partir de sua vivência no sertão – todas as charadas da Rainha, tornando-se rei. A peça mescla as diversas construções dos personagens e as referências usadas para esta construção são claras e divertidas, celebrando o trabalho dos jovens numa peça para morrer de rir.

          Chá para Clarice, da Cia Maktub é um desafio, como afirma o próprio diretor. Como seria a montagem dos contos adultos de Clarice Lispector por crianças? Para crianças? Como seria a epifania, caótica e cataclísmica Clarice Lispector junto a personagens como Chapeuzinho Vermelho, Alice e João e Maria? Os temas de Clarice, os temas de Alice, onde é que se (des)encontram? Como seria Alice como Clarice? Seria possível que crianças do ensino fundamental I e fundamental II entendam a complexidade da mente fora-de-realidade de Clarice Lispector? Todas essas perguntas são expostas, mas não há uma resposta que parta do espetáculo. A cia Maktub entrega ao público o poder de se responder, partindo de fora para dentro, onde a interpretação de cada um preenche o que não foi preenchido – de certa forma, como Clarice fez a vida toda.

Texto escrito  para o Parágrafo Cerrado a partir da programação  do XI Festival Velha Joana realizado em Primavera do Leste no período  de 03/11 a 12/11/2017

Anúncios