Proposição artística: No Quintal, o Mundo, Solta cia de Teatro ( MT)

Foto: Fred Gustavos

Por: Caio Ribeiro

            “O passado é o presente que nos damos”

            No Quintal, o Mundo é o mais novo trabalho da Cia Solta de Teatro, com direção e dramaturgia de Everton Britto e sonoplastia por Karola Nunes e Daniel Baier. Benone Lopes e Maurício Ricardo interpretam os dois personagens principais.

            O espetáculo é uma grande viagem por entre as memórias de um velho senhor que se encontra e confronta com o moleque que um dia foi. O quintal é o palco das mais diversas aventuras inventadas, um universo em expansão e inexplorável, onde tudo é possibilidade e a sutileza do encontro constrói laços indestrutíveis.

            Paz é quando conseguimos nos perdoar. E este perdão implica na possibilidade de convivência com o nosso passado e todas aquelas cicatrizes que acumulamos durante a vida. Ainda que seja difícil, tudo que vivemos é matéria da experiência que alimenta a possibilidade de um futuro mais sólido, e o espetáculo habita o local da memória, de um novo gole no cálice da nostalgia, um encontro com a própria mocidade para que se reacenda a chama das peraltices, para que os meninos cresçam todos para passarinho.

            Com a delicadeza necessária para penetrar a pele e atingir por dentro, No Quintal, O Mundo atravessa as camadas mais sólidas e monta morada na memória da infância. A experiência do espetáculo é uma viagem pelos tempos da preguiça, onde fazer nada era fazer tudo. Onde era simples falar com borboletas e cupins, onde tínhamos tempos para experimentar todas as frutas, na época em que a fantasia corria solta.

            Mas… Onde é que isso se perde? Quando é que a fábrica da imaginação esgota sua produção e nos tornamos o que somos hoje? Faça um exercício: Lembre-se de uma memória da infância. Tente lembrar de como o quintal em que você brincava era grande, possível, ilimitado, abrigava todas as aventuras do mundo. Qual foi a última vez que você ouviu uma pedra? Quando foi a última vez que subiu numa árvore? Quando é que você se perdeu da infância? Aliás, quando é que a gente vira adulto? O que é ser adulto?

            Uma valiosa lição que o espetáculo ensina é que podemos visitar infinitamente o nosso passado, nossa criança interior é sempre receptiva e enérgica, pronta para uma aventura calorosa e curiosa. E esse retorno é exercício indispensável para que a vida possa valer a pena, é uma maneira de fazer as pazes consigo para continuar a seguir em frente, sempre em frente. Sempre enfrente.

            O espetáculo é uma frescor doce para aqueles que sonham, para aqueles que imaginam, pois tem a capacidade de reascender o fogo vívido da criança arteira que existe em cada um de nós. Uma obra essencial para revisitar o campo da memória, montando acampamento na infância, dando um caloroso abraço no passado e seguindo firme para o futuro.

Texto escrito  para o Parágrafo Cerrado a partir da programação  do XI Festival Velha Joana realizado em Primavera do Leste no período  de 03/11 a 12/11/2017

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