Proposição artística: VENETA – GRUPO ATOAÇÃO (RONDONÓPOLIS –MT)

Por: Aline Wendpap

A loucura sempre foi uma das temáticas mais instigantes para a dramaturgia mundial, desde as tragédias gregas, passando por autores brasileiros como Nelson Rodrigues e chegando ao teatro mato-grossense, principalmente pelo grupo Cena 11, inúmeras peças abordam esta temática. Todavia, ainda assim, existe e existirá sempre uma nova possibilidade de se contar uma história, até porque os ângulos, os prismas e os olhares pelos quais se enxergam o mundo não são, nunca iguais. E este é justamente o ponto chave da peça “Veneta”, escrita e dirigida por Joelson Santos.

Talvez a metáfora mais adequada seja o caleidoscópio, já que o mote principal da encenação está calcado na ideia dos vários pontos de vista, das várias emoções e sentimentos à partir de um mesmo eixo. Uma jovem apaixonada e inebriada de amor, que é capaz dos atos mais insanos, quando da (possibilidade) negativa do ser amado em continuar o romance.

Esta é uma peça em que se percebe a mão da direção desde o início, porque as coordenadas das duas primeiras atrizes a aparecer em cena, ao mesmo tempo em que nos intrigam (sobre quem são elas? Ou, o que provocou a aflição vista na cena?), demonstram firmeza e dedicação dos envolvidos para com o desenvolvimento da peça, qualidades que ultrapassam o campo a estética e denotam a importância da arte na vida.

A boa construção cênica do início da trama, aliada a narrativa nada linear, nos faz perder o fôlego por alguns instantes, asfixia impulsionada ainda pelo trabalho das interpretes em cena, totalmente submersas em seus personagens. No entanto, o meio do espetáculo (principalmente as repetidas cenas de encontro de casais) representa um declínio no ritmo que a narrativa vinha apresentando inicialmente, entretanto, acredito que isso possa ser atenuado pela adoção de uma maior diferenciação dos sentimentos envolvidos em cada um desses encontros. Certamente que se a linguagem escolhida fosse o cinema esta cena teria outra recepção e provavelmente corresponderia a um ápice.

Mas, para satisfação geral, o ritmo alucinante e as rasteiras passadas no espectador acontecem novamente dando a ver um final inusitado, que dialoga com o início do espetáculo. Como não tivesse respostas, pois o melhor é ter perguntas. Saí então a pensar: quantas personas cabem em mim? E quantos sentimentos, faces, perspectivas e olhares, cada uma delas pode sustentar? Até quando? Ou ainda: Será que a fraqueza (como da personagem atordoada) pode virar força, um impulso criador/destruidor?

 

Texto escrito para o blog Parágrafo Cerrado, a partir da programação Aldeia Rosa Bororo, ocorrida no período de 06/10/2017 a 21/10/2017, no Sesc Rondonópolis.

 

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