Proposição artística: A Rua das Casas Surdas, de Flávio Costa e Gabriel Mayer (RS)

Por: Wuldson Marcelo

Oito minutos. O que cabem em oito minutos? Em oito minutos, pode-se ganhar ou perder uma partida de futebol. No caso de A Rua das Casas Surdas, em oito minutos, Flávio Costa e Gabriel Mayer expõem a naturalização da violência e a perversidade de um Estado de exceção.

E não é por paixão ou coincidência que se fala de futebol neste texto. As personagens, Carlos e Ernesto, acompanham a narração radiofônica de uma partida. Enquanto o jogo avança, eles discutem trivialidades, matam baratas, descansam. Como qualquer burocrata duma repartição pública esperando a hora de retornar ao serviço. Quando descem ao porão, espera-se que tenham ido buscar documentos esquecidos no arquivo morto ou algo do tipo. Mas não é isso que ocorre. O filme, apesar de não ser construído para um desfecho surpresa, tem um final surpreendente, mesmo que transcorrido no início dos anos 1970, época de “pleno fôlego” da ditadura civil-militar instaurada no Brasil.

O impacto vem da brutalidade que nos salta aos olhos, ainda que não mostrada ao espectador, das interpretações seguras de João França e Evandro Soldatelli e, principalmente, da montagem de Nicole Fosechatto, que acerta na forma como dá expressão para as potências existentes neste fragmento de um dos períodos mais sangrentos da história brasileira.

A banalidade do mal está inscrita, como marca indelével, no porão que esconde do mundo o revolucinário torturado. Seus gritos não são ouvidos. As casas são surdas. E elas continuam/continuarão surdas, já que no Brasil, passados mais de 30 anos do fim da ditadura militar, o poder público ainda perpetra todo tipo de ato execrável. Seja pela violência física ou pela omissão das instituições. Hannah Arendt, filósofa alemã, discutiu como os seres humanos são capazes das ações mais atrozes sem necessariamente ter alguma instigação ou justificativa maligna para cometer tais crimes. A análise de Arendt a respeito da barbárie tem um viés ético-político, em vez de moral/religioso. Assim, pode-se dizer, Carlos e Ernesto são instrumento de uma política que se quer total. Elementos de uma engrenagem que precisa funcionar de modo eficiente, os homens cumprem o seu dever. Eles conversam sobre pormenores do cotidiano e minutos depois promovem a tortura como método para se alcançar um objetivo.

A Rua das Casas Surdas é uma experiência cinematográfica que nos faz refletir sobre a indiferença e a crueldade, e, sobre até que ponto a convicção ou a obediência às normas e ao poder podem nos levar. O curta-metragem fez parte da mostra competitiva do Festival de Gramado em 2016.

Texto escrito para o blog Parágrafo Cerrado, a partir da programação da 16ª MAUAL – Mostra de Audiovisual Universitário América Latina UFMT.

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