Proposição artística: Fios de Mentira – Cia. Art’ Arteiros (Rondonópolis-MT)

Foto: Joicy Souza

Por: Aline Wendpap

A peça começa com uma bela fotografia de três marionetes iluminados entrando pela lateral e subindo ao palco do Sesc Rondonópolis, para apresentar o penúltimo espetáculo da Aldeia Rosa Bororo. Lá, o clima lúdico e infantil se instala e a plateia, que estava cheia de crianças, se encanta. Os bonecos entram em cena e cochilam, neste momento algo inexplicável, talvez mágico acontece e eles se veem libertos dos fios, que ditavam seus movimentos.

A produção se faz pertinente para o público de qualquer idade. As crianças são cativadas a partir do cenário, composto por brinquedos espalhados e uma enorme caixa (de mistérios e surpresas) posicionados no centro do palco; do figurino dos três personagens (uma bailarina muito verossímil, um boneco de madeira e uma boneca menina, ou seria menina boneca?!); da maquiagem e da postura lúdica adotada pelos interpretes. Já os adultos são instigados pelo mote da narrativa, profunda em seu diálogo político-social-cultural entre realidade e ficção.

A construção cênica é feliz ao adotar a metáfora dos marionetes, que são libertados dos seus “fios de mentira”. Porque assim estabelece proximidade com os infantes, que aliás, dão um gosto especial, mesmo na condição de público. E também com os mais experientes que buscam alento e modos de “agir pelas próprias ações” em tempos de manipulações “globais”.

De um dos meus lados estava meu filho, se deliciando, tanto com o figurino encantador, quanto pela própria trama do espetáculo, que para ele dizia respeito à magia, que transforma bonecos em humanos, como Pinóquio (seu conto de fadas preferido) ou Toy Story (um de seus filmes prediletos). Enquanto isso, do outro lado, minha mãe fazia a leitura adulta da produção e tecia comentários a respeito da conexão do tema com o cotidiano da pólis.

Por se tratar de um processo, as pesquisas do grupo parecem buscar outras possibilidades para voz e corpo dos atores, que tem o intuito de dar a ver gestos e partituras corporais que remetam com precisão a corpos de bonecos. Portanto, o aprofundamento de tais pesquisas certamente aumentará a potência discursiva, que o espetáculo já possui.

Texto escrito para o blog Parágrafo Cerrado, a partir da programação Aldeia Rosa Bororo, ocorrida no período de 06/10/2017 a 21/10/2017, no Sesc Rondonópolis.

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