Proposição artística: Chegamos Antes, de Cainã Tavares (São Paulo – Brasil)

Por: Wuldson Marcelo

Em: 25.10.2017

Um indígena deixa a cidade grande para trás. A sua fuga em busca de um novo caminho foi fracassada. Ao longo da rodovia, no percurso de volta, o barulho dos automóveis, ensurdecedores, misturado a outros sons que ecoam nos colossos urbanos chamados de metrópoles, contrastam com o semblante de convicção do jovem Kuaray.

Lembrando da abertura do curta-metragem de Caianã Tavares, temos uma cerimônia, uma canção entoada por um grupo em sua aldeia. A câmera fixa aos pés dos participantes e o ritual de movimentos segue a beleza do canto. Logo, ouvimos um disparo e a morte de um dos indígenas. O assassinado é irmão de Kuaray, que consegue escapar da violência se embrenhando na mata. 517 anos de atrocidades, de um ciclo sangrento. Kuary abandona a aldeia. Para não morrer, para viver. Caianã Tavares fecha um círculo. Da fuga, ao retorno. Da paz imaginada, à luta destemida.

No centro urbano encontra outros personagens marginalizados, não consegue interagir. Presencia o uso de drogas, o abuso de álcool e a indiferença de quem é massacrado diariamente por um capitalismo que devora almas. As ruas são esconderijo e prisão ao mesmo tempo. A civilização é um monstro que engole aqueles que são deserdados da cultura. E justamente por temê-los. Temer modos de vida diferentes, impraticáveis nas noções do racionalismo ocidental. A geografia da raiva de Arjun Appadurai nos ajuda a compreender esse medo do Outro. O desenvolvimento global não perdoa, nem os nativos.

Kuary não encontra abrigo, nem solidariedade. A invisibilidade do outro é o espelho de nossa insensibilização contínua, histórica. Um narciso deformado, que sabe os horrores que vive, mas que abraça os ideais do capitalismo como tábua de salvação para os desagrados constantes de um cotidiano brutal. Neste cenário, Kuary é memória e identidade, é o processo de reconhecimento de suas origens, de seu povo.

A atuação de Ariabo Kezo, como Kuary, é impressionante, conseguindo transmitir toda a dor e consciência da personagem. E isso revela um senão do curta-metragem, que reside no desnível entre as interpretações, que não tem relação com os atores, mas com o pouco desenvolvimento de algum dos personagens secundários. Kezo foi premiado como melhor ator no Festival Cineamazônia 2016. Merecidamente.

Chegamos antes é atual por trazer o conflito pela terra e a dificuldade de estar longe dessa mesma terra. É o passado gritando sua presença: chegamos antes.

Texto escrito para o blog Parágrafo Cerrado, a partir da programação da 16ª MAUAL – Mostra de Audiovisual Universitário América Latina UFMT.

 

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