Por Aline Wendpap com contribuições de Juçara Naccioli

Proposição: Oficina GESTO, com Licko Turle e Flávio Sactum (RJ)

“Creio que o teatro deve trazer felicidade, deve ajudar-nos a conhecermos melhor a nós mesmos e ao nosso tempo. O nosso desejo é o de melhor conhecer o mundo que habitamos para que possamos transformá-lo da melhor maneira. O teatro é uma forma de conhecimento e deve ser também um meio de transformar a sociedade. O teatro pode nos ajudar a construir o futuro, em vez de mansamente esperar por ele” (BOAL, 2015, p. 15).

 

Um misto de adrenalina e angustia foi o que senti diante do desafio proposto, de escrever sobre a Oficina de Teatro do Oprimido. Ministrada por Licko Turle e Flávio Sanctum, respectivamente fundador e membro do GESTO (Grupo de Estudos Teatro do Oprimido), e, ofertada pelo Sesc Arsenal, como parte da programação da Aldeia Guaná, que teve como temática “Os ruídos que a arte provoca na cidade”.

A oficina reverberou muito acerca do diálogo entre arte e cidade, sobre esse revérbero um mix de emoções tomou conta de mim, principalmente pela noção de que, o que foi vivido naqueles dias somou para a composição de uma verdadeira experiência. Entendida no sentido adotado por Walter Benjamin em “Experiência e Pobreza” (1933) – quando ele fala na verdade sobre a falta dela naquele tempo – e por Jorge Larrosa (2006), que a define como sendo “…o que nos passa, o que nos acontece, o que nos toca. Não o que se passa, não o que acontece, ou o que toca” (LARROSA, 2006, p.23). Sintetizando, a experiência adquirida no decorrer do curso não pode ser considerada algo banal ou corriqueiro, mas antes um processo de mutação de corpo e mente.

Graças a Cronos, o tempo passa e as experiências podem ser comunicadas e transmitidas novamente, diferentemente do pós Primeira Guerra Mundial, quando, segundo Benjamin elas eram incomunicáveis. Sendo assim, necessito dizer sobre como esta oficina alterou o modo de perceber a mim e ao mundo. Estudar e dialogar com Augusto Boal e o Teatro do Oprimido num artigo acadêmico[1] já havia sido instigante, mas foi apenas a primeira fagulha, que em de longe prenunciava o que estava por vir.

Já no primeiro dia do curso sou chacoalhada pelo meu modo antiquado de me referenciar à participante trans do grupo, que eu conhecia desde antes. Muito sutil e educada ela me pediu que não me referenciasse mais à ela no masculino. Fiquei imensamente grata por sua discrição, mas profundamente abalada ao me descobrir presa a costumes e convenções.

Com a brecha no tempo que suscitei em minha correria diária pude experimentar o T.O e não apenas “passar por ele”, distanciando este momento de uma vivência fugaz. Acredito que vários de meus colegas compartilhem comigo deste sentimento. Porque o final do processo despertou em nós o desejo de continuar por estes trilhos, estudando, pesquisando e transformando cada vez mais o Teatro do Oprimido em uma experiência real e comunicável. Ao nos apropriarmos deste meio de produção “político e terapêutico” somos empoderados e passamos a deter a “capacidade de auto-observação” necessária para a saída de tudo que é convencional.

Os professores nos direcionaram para um processo de liberação e limpeza da mente, necessário para deixar ideias novas adentrarem. “Acordar” nossos músculos, dia após dia foi ‘doloroso’, não apenas no sentido físico, mas porque essa movimentação despertou também memórias guardadas num canto muito especial de minha vida. Uma asfixiante comunhão de dores física e emocional – gerada pela distância do teatro, dos palcos, do universo artístico – daquelas que se sentem no romper da placenta e do coroar do primogênito. O curso enquanto momento de partilha impeliu este sopro de vida, o Ânima, a quem tinha necessidade e desejo de voltar a (re)viver, a (re)nascer “[…] a partir para a frente, a começar de novo, a contentar-se com pouco, a construir com pouco, sem olhar nem para a direita nem para a esquerda” (BENJAMIN, 1996, p. 116).

BENJAMIN, Walter. Experiência e pobreza [1933]. ______. Magia e técnica, arte e política. São Paulo: Brasiliense, p. 114-119, 1993.

BOAL, Augusto. Jogos para atores e não atores. Ed. SESC, 2015.

LARROSA, Jorge. Algunas notas sobre la experiencia y sus lenguajes. Estudios filosóficos, v. 55, n. 160, p. 467-480, 2006.

[1] CAMPOS, Jucelina F. de; RODRIGUES, Cibele A. e SIQUEIRA, Aline W. N. de. O papel do teatro na escola para o despertar da filosofia, artigo no prelo pela revista Cena da UFRGS.

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