Proposição artística: No quintal, o mundo, Solta Cia de Teatro (MT)

Por Aline Wendpap, Fred Gustavos e Vinicyus Andrade

 

O espetáculo “No quintal, o mundo”, que a Cia Solta define como trabalho em processo apresenta questões sobre a dualidade entre o olhar de uma criança e de um adulto. E busca, pelas lembranças da infância, reavivar a vontade de aprender através do desatinado encontro de um menino com um velho viajante.

Confrontando duas visões de mundo, as divergências de direção nas percepções da vida e nas perspectivas de futuro logo surgem. O velho, que viajou mais do que queria, olha sempre para trás, revelando como sina a vida que nos leva, muitas vezes, por caminhos fora de nossas expectativas. Enquanto isso, a criança olha sempre para a frente e, munida de seus sonhos pueris, segue ansiosa por desbravar o mundo e por ser livre de preconceitos.

Contrariamente à coragem e a ansiedade apresentadas pelo garoto, o medo e as precauções características da idade adulta se fazem presentes nas ações e reações do Senhor, já que este não “mergulha de cabeça” no poço da imaginação onde o menino nada de braçada! Por exemplo, na cena do cupinzeiro o velho se arrisca um pouquinho, mas rapidamente retoma sua postura adulta e desiste da brincadeira, ou melhor, acha a saída do cupinzeiro bem antes do menino, exatamente como a maioria dos adultos, que idealiza a infância como o “paraíso perdido” e, no entanto, deseja que ela permaneça intocada, porque caso seja explorada a fundo, tudo pode desabar.

Talvez nosso olhar viciado pela TV, por exemplo, com Roberto Bolaños interpretando Chaves, nos faça enxergar, no ator Benone Lopes Moraes sem maiores problemas, um menino. Afinal, quem já interpretou Simba, em “O Rei Leão” nunca perde a majestade, nem o olhar infantil. Atributo que conecta o personagem ao público, composto de crianças de todas as idades. Ainda que inicialmente seu trabalho de corpo retrate imagens um tanto quanto caricaturais da infância, há uma relação de proximidade com a plateia, perceptível pelas reações desta, na apresentação ocorrida dia 12 de Setembro, durante a Aldeia Guaná no Sesc Arsenal. A voz e o ritmo do ator em cena, sobretudo durante as canções devem ser evidenciados, pois contribuem para o estreitamento dos laços com o público.

Já Mauricio Ricardo apresenta num primeiro momento um senhor enigmático e ambíguo, a começar pelo figurino, composto por uma mala quadrada, que combina com algumas atitudes do mesmo padrão, uma calça adornada por flores, levando a pensar que a alegria tenha sido incorporada aos poucos a personalidade do senhor e botões coloridos no paletó, demonstrando um certo espírito aventureiro (ainda que cansado), como se fossem medalhas representativas das várias peripécias vividas. De maneira versátil, Mauricio também dá vida a terceira e talvez mais engraçada personagem da peça, a Rainha dos Cupins, compondo com o menino uma cena de releitura do chá de “Alice no País das Maravilhas”, numa miscelânea divertida de Rainha Vermelha, Rainha Branca e Chapeleiro Maluco.

Auxiliada pela magia própria ao teatro, que é capaz de transformar uma escada em árvore, algumas caixas em rochas, juta em ninho de passarinho e qualquer objeto aleatório em um cupinzeiro, a Cia Solta apresenta as possibilidades de encantamento contidas num espaço simplório como um quintal. Este ao ser ampliado pela imaginação do garoto se transforma em um lugar lúdico, no qual se desenvolve o imaginário da cena. Ao ser observado desde uma perspectiva polifônica é possível perceber que este mesmo espaço possui reversos, como a precariedade na qual o menino está imerso, a falta de escolas no local, a ausência de outras crianças, dando a ver seu isolamento, fator que o aproxima ainda mais do forasteiro.

O espetáculo possui ligações e referências à poesia de Manoel de Barros. O poeta, especialmente no livro “Exercícios de ser criança”, apresenta uma infância bem diferente e distante da experimentada pela vida contemporânea na urbe. E, tanto o livro quanto a montagem provocam um sentimento de nostalgia na maioria de nós, sendo difícil não pensar em qual é a infância que estamos proporcionando às nossas crianças Passeando por este universo, a construção dramatúrgica culmina num texto de tom poético e leve ainda que profundo nas questões reflexivas. Nesse sentido, a música e os músicos/passarinhos trazidos para a cena a fim de apresentar as composições autorais pensadas especialmente para o espetáculo fortalecem a dramaturgia uma vez que são parte da narrativa e não algo meramente apensado. Ao contrário, “todos os movimentos são friamente calculados”, pelo diretor e dramaturgo Everton Britto em sua investida pelo universo da infância. E pela via da conexão entre passado e futuro a Companhia deixa seu recado a respeito do enrijecimento de valores sociais e do apego a preconceitos.

É imperativo registrar que esta apresentação foi mais que especial, pois todos os presentes (atores, equipe técnica e público) foram instigados a pensar e repensar sobre inclusão e acessibilidade, questões há muito abafadas não apenas no âmbito do teatro, mas da sociedade como um todo. Certamente quem esteve ali jamais esquecerá a lição que as crianças, principalmente as de pouca idade, nos deixam: igualdade e respeito para com todos. Quiçá assim possamos crescer para passarinhos!

Texto escrito em Oficina de Crítica teatral ministrada por Kil Abreu, no âmbito do projeto Cena em Questão, do Sesc Arsenal (Cuiabá-MT), a partir da programação da Aldeia Guaná, no período de 02/09/2017 a 16/09/2017, no Sesc Arsenal.

 

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