Proposição artística: Para Menores- Elka Victorino ( MT)

Por: Caio Ribeiro

Foto: Fred Gustavos

O espetáculo se inicia em uma antessala escura e quente, onde o público aguarda inquieto o acesso aos outros espaços, separados por um vidro onde está a bailarina e professora de dança Elka Victorino, com uma claquete “Elka, 45”.  Neste pouco tempo de espera, podendo espiar um filete do que está por vir do espetáculo de dança contemporânea, o público faz rápidas e superficiais reflexões sobre o cárcere privado, ali, no calor da impaciência, quebrando o gelo.  Após a abertura da porta que põe fim a separação de bailarina-público, o novo espaço cênico está dividido em dois eixos para o público se sentar. São cercas de tela que separam espectador de atriz. Um espetáculo de duas frentes, e Elka as explora muito bem, privilegiando estas duas partes, permitindo assistir tudo de duas perspectivas, pois recria as cenas dos dois lados.

Elka nos coloca em várias posições, obrigando a enxergar outras perspectivas de visão através do arranjo do espaço cênico. Em um momento, observa-se um animal no zoológico, passivo, apreciando o quão exótico uma cela de presídio pode ser, enxergando aquilo com a naturalidade de quem assiste horas de casos de menores infratores no noticiário e banaliza todo o resto. N’outro, Elka arremessa a perspectiva para dentro da cela, nos fazendo experimentar a humilhação presente na hierarquia institucional de um presídio para menores. O abuso de autoridade para construção de uma falsa imagem moral da realidade dos garotos que estão trancafiados nas celas, aguardando a professora de dança chegar para mais uma aula. E aí começa a viagem para outra prisão, a mente e a forma de enxergar destes menores.

O espetáculo é um passeio pelas perspectivas de encarar a realidade da população jovem carcerária que tem a o destino alterado quando uma professora de dança começa a estuda-los. Elka ilustra no corpo a objetificação da mulher, principalmente a mulher periférica, hipersexualizada, e reforça, na sonoplastia do funk, a figura da mulher reduzida a um corpo sensual que rebola para satisfazer o prazer sexual interminável do homem.  Com belíssimos movimentos e partituras corporais, Elka percorre o desespero e a inocência perdida destas crianças, em especial as meninas, que dançam entre a fé e o desejo, num profanar que nos comove. A esperança divina explode pela boca, virilha e peito. É anunciação dum contrabando de cápsulas de entorpecentes dentro de um ventre feminino.  Após a jornada pelas perspectivas dos jovens presos, Elka materializa todos eles, nomes e idades, com seus chinelinhos virados para ela, entre a inocência e a maldade.

Preciso dizer que só enxerguei Elka ao fim, quando ela mesma se desmancha para revelar sua “ficção”. Uma maravilhosa transmutação pelos olhos dos menores que a assistiam.

Texto escrito em oficina de crítica ministrado por Kil Abreu, no âmbito do projeto Cena em Questão do Sesc Arsenal (Cuiabá-MT), a partir da programação da Aldeia Guaná, no período de 02/09/2017 a 16/09/2017, no Sesc Arsenal.

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