Proposição artística: ESPECTRÓIDES – Performance/Cinema Expandido (SPECTROLAB, MT)

Foto: Pedro Ivo

Por: Janete Manacá

       Um minúsculo salão, uma tela branca, dois corpos em recomposição e uma pequena plateia marcam as horas ao som da respiração e olhares fixos no processo de construção. Na intimidade do instante tudo se expande como um único corpo.

        Na imagem projetada a tesoura afiada demarca o tecido/pele e a metamorfose aos poucos desabrocha na intenção outrora latente. Calor, silêncio e tensão permeiam a trama que ritmicamente toma forma, transforma e disforma.

   Entre fragmentos de diálogos as personagens virtuais, dilaceradas expõem seus sonhos, traumas e frustrações, que se misturam ao mundo real.

     Corpos são compostos por retalhos escolhidos na sutileza de cada intenção. E na liquidez da absurda modernidade o ser se recria quantas vezes forem necessárias.

     Laços são estabelecidos como promessas de eternidade, mas no dia seguinte se desfazem, pois já não satisfazem a busca insaciável de fúteis desejos.

     Assim segue o pretenso humano, colecionando máscaras para serem usadas em momentos apropriados. O outro é seu território dominado e quando o interesse termina será friamente descartado.

     Por isso ele corta e recorta retalhos para refazer a sua própria pele, sempre e da maneira que achar conveniente. Cada recorte faz dele um outro ser, incompleto, inquieto. E nesse agir descompensado, envolto em falsa embalagem vai vendendo o que não é.

     Mediante esse jogo do real e imaginário cada qual reinventa o seu destino. E na transgressão reconstrói caminhos sob hipóteses violentas disfarçadas de amor.

     O sagrado também é violado. E cada desejo liberto não tem limite, porque a surdez o impede de ouvir os agonizantes gritos que se dilui na liquidez caótica dos conflitos. 

Texto escrito para o blog Parágrafo Cerrado, a partir da programação  Aldeia Guaná  no período de 02/09/2017 a 16/09/2017, no Sesc Arsenal.

Anúncios