Proposição artística: As Aventuras de Zé Travessuras, com Teatro Nó (Nova Olímpia – MT)

Por: Talita Figueiredo

Do jardim do Sesc Arsenal, estandartes com mapas de tesouros prenunciam uma peça infantil. Aguardo para ver quem será o tal Zé Travessuras do título da peça. Dois personagens chegam abrindo caminho pelo público, cantando. Eles são Zé Travessuras e Fantasia, músico que acompanha toda a peça. O protagonista se apresenta como o pequeno José, uma criança, mas quando brinca, o pequeno José se transforma no grande Zé Travessuras. Seu antagonista é o Caos, também chamado de Pesadelo, personagem que surge cuspindo fogo e que logo destrói o mundo de sonhos de Zé. O menino está crescendo e esse é o ponto de conflito que move o personagem em sua jornada de aventuras. O Caos destrói os sonhos dos que se perdem em meio à racionalidade e frieza do mundo adulto. A partir daí, Zé Travessuras trava uma batalha pelo resgate de seu mundo infantil.

Embora a peça esteja situada num universo fantástico, há momentos em que os personagens fazem referências a desenhos animados e canções populares conhecidos pelo público, como o Chapolin e a música sertaneja. A criançada embarca na aventura e se delicia com esses momentos de descontração gerados pela quebra da quarta parede e que dão um respiro à seriedade da saga de Zé. Interessante ainda notar a importância dada à cultura regional. O Minhocão do Pari, figura do folclore mato-grossense, tem papel relevante na história. Versáteis, os atores transportam o público ao universo de Zé por meio de recursos cênicos variados, como malabarismo, números de mágica, manipulação de bonecos e muitas canções.

Ao final do espetáculo, o grupo, em seus agradecimentos, faz questão de afirmar que vem de Nova Olímpia – seria por conta das iniciais da cidade que a trupe se chama Grupo Nó? – a 200 quilômetros da capital. Penso, naquele instante, que aquela talvez seja a primeira vez que assisto a um trabalho de Nova Olímpia. Fico contente, pensando em como nosso estado é rico em realizadores teatrais. De repente, o enredo da peça se torna ainda mais claro. A luta de Zé Travessuras em defesa de um mundo de sonhos é análoga à de tantas trupes teatrais, e o Grupo Nó é, felizmente, mais uma delas. Ainda nos agradecimentos, os integrantes do elenco reverenciam seu mestre, Genival Soares, e afirmam que fazem em sua cidade um trabalho de resistência. Resistência e arte. Duas palavras que vi concretizadas ali, na poética da peça e no discurso de um grupo de artistas satisfeitos por trazerem sua peça para a minha cidade.

Todos naquele palco eram Zé Travessuras, artistas resistindo ao caos de se fazer teatro em meio às dificuldades inerentes ao ofício do artista. Em defesa do lúdico, o personagem Zé Travessuras derrota o Caos/Pesadelo e restaura seu Castelo de Sonhos. Da mesma forma, em defesa do teatro, o Grupo Nó – e tantos outros – derrotam a inércia e alegram plateias fazendo o que sabem de melhor: uma arte de resistência.

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