Proposição artística: #Nudes, com Lucas Koester – Cuiabá (MT)

Por Caio Ribeiro

Lucas Koester me mandou um nude e eu chorei.

Havia um corpo vestido com nude. Um metafigurino que compunha os movimentos do daquele corpo em nuances. O corpo escutava as vibrações vindas de um fone de ouvido e nós captávamos o que aquelas orelhas deixavam passar. Era intimista. Me senti só, ainda que rodeado de pessoas que fitavam Lucas tentando entender todo aquele silêncio. Eu entendi. Naquela dualidade do caos, o performer se expurgava, e nós como bons expectadores, assistíamos sem ter a mínima noção da força que aquele corpo ouvia e vibrava. A forma como Koester encara aquela pequena tela do celular contém uma verossimilhança tão forte que te incomoda: você se enxerga. E isso dói. Dói imaginar por alguns segundos que somos nós, zumbis digitas escravos das telas de 16 milhões de cores. Dói saber que aquele corpo dependente da vaidade é um retrato meu de peito aberto. A partitura corporal treme com as vibrações.  Fragmenta. Experimenta. Envia nude. Se completa na própria falta e escapa pelos dedos, entre a forma e a não forma daquele corpo que veste o próprio nude.

Nudes é antes de tudo, um expurgo. Um exorcismo. Uma forma que o performer encontra de, através da matéria do corpo e respiração, para vazar todo o seu verdadeiro nude. Os gemidos são como esmigalhar vidro com a mão. Dói de assistir. Dói de aceitar.

Quando na altura do fim do rito, a canção toma o espaço cênico e numa ironia inabalável, vemos o corpo implorar por remissão. Aleluia!

O verdadeiro nu vem só no final, numa caminhada milimétrica que te leva para um fim, que marca um recomeço. Tudo que chiou na distorção hipnótica da última projeção, eram os estragos dos nudes, não do corpo, mas da alma que busca redenção. Todo mundo deveria mandar nudes como Lucas Koester.

Texto escrito para o blog Parágrafo Cerrado, a partir da programação do Festival Palco Giratório no período de 04/05/2017 a 27/05/2017, no Sesc Arsenal.

Anúncios