Proposição artística: Andarilho das estrelas – Grupo Tibanaré- Cuiabá (MT)

Por Luiz Renato

ÓI NÓIS QUI TRAVEIZ e para falar de teatro, de Palco Giratório, de Tibanaré. Depois de uma noite chuvosa e uma manhã refrescante, por volta das dez, hora marcada para o espetáculo, a “lua” cuiabana se abriu rachando o côco dos passantes. A praça que era da República viu sair o cortejo cênico tendo no repertório cantigas populares que abriam alas e pediam passagem. Era um carnaval poético e os pierrôs ladeados pela bela colombina distribuíam sorrisos enquanto espaçavam sua mensagem.

Andarilho na Estrelas, mas com o sol quente na moleira, sim, e saindo da praça, pedindo licença aos automóveis para ocupar as ruas, a trupe foi espalhando alegria pelo calçadão tendo como primeira batalha a da Riachuelo, sem seu maior vulto, Tamandaré, e sim, Tibanaré. A invasão da loja onde se alojaram nossos guerreiros foi seguida pelo pessoal de todas as tribos e terreiros. Transformadas em estrelas, as caixas da tal loja sentiram-se lisonjeadas pois estavam atendendo a poetas  e andarilhos da alegria, ao invés de serem possuídas por relações de crédito e débito, como de costume.

E o espetáculo continua pelas calçadas repletas de pessoas que andam de lá para cá atrás de promoções. Vez por outra uma delas era envolvida por um guarda-sol a escutar cochilos poéticos e histórias envolventes que buscavam trazer à tona uma réstia de suas almas. Foi assim com várias senhoras, com uma bela criança e, especialmente com a senhora das raízes, a que vende os amargos e unguentos e que experimentou seu dia de alegria, de atenção, transformada que foi naquele instante em verdadeira estrela pelos andarilhos que seguiam os trilhos que levavam ao coração das pessoas.

Lembro-me bem quando o grupo iniciou as pesquisas para montar o espetáculo, pedindo sugestão de textos para compor a dramaturgia. Mas não havia visto ainda a montagem. E o momento foi oportuno; não faltou o brilho noturno para acalentar a alma, o dia quente de nossa capital foi suficiente para tal empreitada. O parágrafo se fez presente e a gente sente que ainda há muito o que fazer por aí. O povo precisa se enxergar mais nos espetáculos que são para ele, pois na verdade, a voz é dele, o artista é apenas um instrumento que toca o coração de quem ainda tem o bem entranhado em sua visão de mundo. Tibanaré, um grupo que vai além da lenda e que vai aos poucos conquistando espaço no cenário cultural de Mato Grosso. Vida longa aos andarilhos do bem.

Texto escrito para o blog Parágrafo Cerrado, a partir da programação do Festival Palco Giratório no período de 04/05/2017 a 27/05/2017, no Sesc Arsenal.

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