Proposição artística: O quadro de todos juntos- Pigmalião Escultura Que Mexe-  Belo Horizonte

Por Luiz Renato

Não pude assistir ao espetáculo FINITA, COM DENISE STUTZ (RJ), mas participei do Pensamento Giratório, espaço privilegiado para um bate papo com artistas que frequentam a programação do festival. Denise falou de sua trajetória como fundadora do grupo Corpo, de Minas Gerais e de como seus caminhos todos influenciaram em suas escolhas, impregnando seu próprio corpo. Falou com propriedade de seus três momentos solo e de como a palavra acoplou-se ao seu fazer cênico: o corpo, a dança, a voz – o nascimento, o tempo, a edição da palavra como movimento.

Mas a noite nos aguardava com muito mais. O espetáculo O QUADRO DE TODOS JUNTOS, COM PIGMALIÃO ESCULTURA QUE MEXE (MG) nos apresentava uma família como outra qualquer (só que não!). Um clima de zoomorfização tomava conta do palco e invadia-nos aos poucos abalando as estruturas emocionais do expectador desavisado. Nem Foucault, nem Freud, não me interessava o ponto de partida, mas o de chegada. O mal súbito a que me submeti fez com que procurasse me ater a pequenos detalhes que fugiam ao racionalismo cristão.

Provocações sobre provocações. Cena após cena configurava-se um álbum de retratos/relatos de horror. Corrupção dos gestos, da moral, aviltamento da conduta social. O grupo mineiro conseguiu estabelecer uma empatia disfarçada de hipnose coletiva e distribuía maçãs ao final do espetáculo. O fruto proibido nos transformava em chapeuzinho vermelho enquanto disfarçávamos a presença dentro de cada um de nós de um certo lobo mal.

Bonecos em linguagem adulta; a palavra reinventada pelo gestual, adocicada por grunhidos de um selvagem faz de conta. Como se o ser humano fosse apenas voltado para o bem. Mastiguei uma das frutas para deglutir melhor aquele momento; e ela me trazia leve azedume ao paladar. Pensava no pecado original, no sexo entre pais e filhos, irmãos, e mesmo na cena solitária do início da trama. Penso agora em tudo o que vi, em como me senti com as cenas explícitas de uma animalidade brutal. Torci para que acabasse logo e pudesse sair dali para um porto seguro. Esquecia-me apenas de que a realidade é bem pior do que a ficção.

Pura tensão. Uma boa noite de sono é tudo o que preciso para me recuperar do choque. Não dá para culpar a ninguém pelo que vi. Gostaria de que tudo isso não passasse de uma abstração!

Texto escrito para o blog Parágrafo Cerrado, a partir da programação do Festival Palco Giratório no período de 04/05/2017 a 27/05/2017, no Sesc Arsenal.

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