Proposição artística: Carne – Uma narrativa sobre a memória – Solta Cia de Teatro – Cuiabá/ MT

Por Jan Moura

 

O que ainda é possível falar sobre tantos episódios de tortura e violência que diversas pessoas sofreram e, infelizmente, ainda sofrem diariamente, seja por sua cor, por sua posição social, por sua escolha profissional, pela condição do seu corpo, por ser mulher, por ser gay, por ser algo além do que se habituou a considerar normal? Parece que tudo já foi dito e comentado. Parece que já estamos acostumados. Parece que nada é novidade. Parece que nada mais é capaz de nos afetar (e que perigo se esconde nisso!); Que pele ainda falta rasgar para que o corpo possa aparecer vivo e potente?  

Carne – Uma Narrativa Sobre a Memória, fala de personagens reais; conta histórias; narra episódios dolorosos; nos convida a mergulhar em dramas diversos e nem sempre localizados; Oferece tantas camadas de pele e de significados, que a gente vai tirando até encontrar uma  que me pareceu a essência: o que ainda é capaz de nos afetar? Uma outra camada ainda me deixa mais extasiado: Quando as peles dos personagens fictícios vão saindo, e sobra a pele destes atores. Quando percebo que não estamos falando só de vidas ficcionais, externas ou inventadas, quando a pele que se mostra são dos próprios artistas. Ou quando percebemos que estamos falando da nossa própria carne.

A obra proposta pela Cia Solta de Teatro, mistura narratividade e performatividade, ao borrar fronteiras e  questões desses gêneros artísticos. Vemos histórias sendo contadas e ao mesmo tempo como elas afetam os performers, e isto nos afeta. Somos literalmente envolvidos por uma experiência que conjuga visão, audição, sinestesia, olfato e paladar, causando afetos, estranhezas e toda ordem de relação possível. Sinto que o trabalho amadureceu, desde a primeira vez que tive contato com a pesquisa, novos elementos e artistas entraram para somar, dando corpo e engrossando ainda mais a obra.

Enveredar para o caminho de uma arte que se propõe espaço para a relação e o contato não é tarefa simples. Enquanto público, ainda estamos acostumados com obras que não nos desafiam, que são confortáveis de ver e que não criam uma verticalização potente da relação. E me parece que este é o caminho da pesquisa da Cia Solta. Uma obra que é porosa em si, que vai se moldando a novo espaço ou acontecimento. Que se propõe em movimento, que acentua a cada nova noite de apresentação seu papel de provocação, de pretexto para o contato.

O que mais me afetou em Carne é que a narrativa não era sobre o outro, era sobre nós mesmos. Não foi a carne do outro que foi exposta, foi tudo pretexto. O que se expõe é a nossa própria fragilidade, vemos refletido naquelas vidas (personagens, personas e performers) a nossa própria camada invisível, nossa carne (nem tão bonita) escondida pela pele perfumada da sociabilidade.

Texto escrito para o blog Parágrafo Cerrado a partir da programação da Semana Sesc de Leitura e Literatura, realizada no período de 25/04/2017 a 30/04/2017, no Sesc Arsenal.

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