Proposição artística: COMPATRIOTA 066 – Coletivo Tibanaré- Cuiabá Mt

Autocrítica é uma característica que custei a desenvolver. Foi necessário um completo amadurecimento para chegar a tal. E me encontro aqui, diante do teclado: como falar sobre um trabalho que, do começo ao fim, eu estava nele?

O rito de vestir as túnicas brancas nos trazia uma proximidade, uma parceria onde os mais experientes ajudavam os que não sabiam como vestir. Em contrapartida toda nossa identidade se perdia numa uniformização sem vida, expressa numa mancha branca de olhos atentos. De um dos corredores alguém grita. Seguimos caminhando. Em uma nova sala, a fraternidade ritualística se instaura. O ator Jefferson Jarcem iniciou um canto, e aos poucos tomamos forma e coragem para acompanhar. Aí se iniciaram os cumprimentos. Todos, um a um, se cumprimentaram. Todo aquele cerimonial me lembrava muito covens de alguma seita secreta prestes a executar algum ritual em noite de lua cheia.

Talvez eu esteja indo fundo demais no conceito, mas as vestimentas tão individuais e padronizadas somadas ao calor insuportável da Casa Cuiabana naquela noite, contribuíram para que eu tivesse uma experiência mais imersiva no espetáculo. Era como se o calor me tornasse mais suscetível a aceitar as torturas inferidas ao pobre garoto que queria conhecer a casa depois da montanha. Eu também estava sendo torturado, e talvez fosse a única forma de aceitar, quiçá jogar tomates.

Compatriota 066 me fez voltar ao início dos anos 70 quando inúmeras vertentes do ocultismo explodiram em ascensão. Cada sociedade e seita com seus costumes e práticas e a sua mesma maneira de acessar o céu, o nirvana, a casa cuiabana, o que tem depois da montanha. Por vezes, o caos e a falta de consciência por esforço repetitivo aliena toda nossa concepção de tempo e espaço, transformando qualquer pessoa em um corpo vazio que desliza entre real e abstrato. De um lado, Jeffersom sofrendo as torturas de Dr. Falsus e eu, ardendo em calor. Ambos inseridos em algo que queriam ir até o fim.

Uma experiência que vale uma linha? Jefferson gritou quando lancei um tomate em suas costas. De onde vieram os tomates? Não sei. De onde veio a vontade de lançar o tomate? Não sei. A força? A pontaria? Não sei. Talvez o calor. Talvez.

Texto escrito para o blog Parágrafo Cerrado, a partir da 1ª temporada de teatro “O Levante”, no Centro Cultural Casa Cuiabana realizada no período de 31/03/2017 a   23/04/2017 .

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