Proposição artística: Compatriota 066 – Coletivo Tibanaré – Cuiabá-MT

Por Luiz Renato

Em:17/04/2017

Foto de Bruna Obadowski

Grilhões do corpo e da alma. Assim recebi a montagem de Compatriota 66 da Companhia Tibanaré. Espetáculo criptografado do início ao fim mescla rituais que lembram sociedades secretas e misticismo em meio a reflexões pausadas que geram desconforto a todos os partícipes da reunião. Se por um lado a indumentária lembra a Ku Klux Klan, também invoca a Procissão do Fogaréu, de Goiás velho. Diante de cenários de extremismo exacerbado, o trabalho nos impõe profundas reflexões acerca do que seja humano.

Gosto da maneira como se inicia. Os corpos recebendo as vestes, a concentração sugerida pelo traje, a entrada no primeiro ambiente. O ritual de abertura congrega a todos em um mesmo movimento. Um leve mantra vai embalado a consagração dos irmãos que obedece a ligeiro ritual com as mãos e braços que irmanados transmitem energias de um para outro, passo a passo, a roda gira. Pude experimentar abraços calorosos e apertos de mãos que mexeram com minhas energias vitais. Entrei no jogo e só tenho a agradecer a experiência.

No salão principal nos aguardava um cenário delicado, embora a presença dos compatriotas em regime de alerta causasse certa expectação. A personagem vai nos introduzido seu drama pessoal enquanto afunila-se o compasso de espera. Sabemos que algo está por vir. A água purificadora, as flores e o paletó; sonhos desfiados da assistência e incinerados como nossos corpos que ao pó sempre voltarão.

Sinto-me mais revelado do que percebido e o espelho me traduz em metáforas parte do que não reconheço em mim. Penso que um dos méritos da montagem está no preço que pagamos para podermos dispor do que nos acorrenta. O convite ao desespero fácil, à diluição dos sentidos e do desconforto com a matéria está colocado. A baleia azul tem semeado corpos à sorte mundana em nome do jogo. Não estamos em um vídeo game. Todo poder ao desejo que impulsiona nosso devir.

O perigo do jogo se instala no meio de nós. Talvez um dia a gente possa conversar melhor sobre tudo isso. Mas isso o que? Tudo, absolutamente tudo o que possa estar passando em sua cabeça agora. Os grilhões que prendem o corpo e a alma estão por aí. Precisamos soltar as amarras do desejo solitário. Faz-se urgente uma tomada de decisão, seja ela qual for. O estado de conforto não pode mais nos transformar em títeres de uma angústia coletiva. Você precisa fazer algo por você; e tem que ser agora!

Texto escrito para o blog Parágrafo Cerrado, a partir da 1ª temporada de teatro “O Levante”, no Centro Cultural Casa Cuiabana realizada no período de 31/03/2017 a  23/04/2017 .

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