A água goteja insistente e incessante. O palco é uma lona no chão. Quatro cadeiras em cada canto. Velas acesas. Potes cheios d’água. A goteira gotejante marca o compasso do tempo de cada um. Cada personagem que emerge de suas águas profundas para dar voz a uma narrativa que pode ser de todos. Na superfície do ser o encontro de memórias que se afogam. O espetáculo Das Águas da Cia Carona de Teatro revolve sentimentos adormecidos no conforto da cama quente enquanto a goteira pinga, pinga, pinga. Até que nos vemos inundados por sua força. E acordamos assustados, de sobressalto.

O rádio rompe com o primeiro silêncio e notícias sobre enchentes “Mais uma vez” enchem nossos ouvidos.

É o pai que procura a filha, a filha que procura pela mãe, a chuva que não para de chover, dias e dias em que seu cair é insistente e incessante. Eles rompem o silêncio com gritos, com o escuro, com as velas. Os quatro atores tecem a narrativa e ecoam histórias que podem ser de qualquer um. Em algum momento entre esses gritos, um sonoro Fora Temer.

As histórias continuam, as lágrimas molham o chão já molhado com a água que pingo a pingo inunda o sentido da trama. Guarda-chuvas se abrem. Mas não importa mais. O que se sente é que não importa quando, não importa onde, tudo muda. “A gente tenta seguir uma linha, mas a vida vem e embaralha tudo”. Aquilo que pensamos ser eterno em nós é tão passageiro quanto a chuva.

Eles continuam e você percebe que o dia amanhece normalmente, antes de ser chuva. As pessoas vão trabalhar, tomam café, compram o pão, passeiam com o cachorro, pagam suas contas, enfrentam a fila do banco, correm no parque, levam os filhos para a escola. E de repente, não mais que de repente, o céu fica cinza. E a chuva desce. Não mais que de repente, você está ilhado. Longe de todos a quem ama, sem poder se comunicar e saber como estão, se estão a salvo, se a chuva os ilhou também, ou se os levou.

E tentam convencer a si próprios de que às vezes, é melhor que a chuva leve e lave. Os corpos se lançam, é como se a água os arrastasse. Eles se jogam entre si, lanternas rompem com o escuro, entre as vozes, os gritos e o movimento dos corpos, a sensação é de sermos todos arrastados por um redemoinho. Um redemoinho de água.

Novamente silêncio. Corpos estendidos com velas nas mãos. Corpos que se carregam, que tentam encontrar os seus para chorar suas partidas, que precisam saber para poder continuar e carregar a maior dor do mundo. O sentimento de impotência. “Toda vez é assim e ninguém faz nada”. Esse cenário não é só de um lugar, mas de tantos. Tantas famílias, tantos lares que se perderam para a força das águas, quando o rio invade tudo e leva o que estiver em seu caminho. “A vida é uma piscina de merda”. “Todos vamos morrer, afogados”.

E penso na sincronicidade das coisas, visto que um dos nossos municípios produtores, Campo Novo, está debaixo d’água. É a natureza que se revolta ou somos nós que infligimos a sua dor através da constante intervenção humana em seus leitos, rios, águas, terras? A chuva cai, acaba com plantações, invade casas, leva vidas. “Mais uma vez”. Lá em Campo Novo, o bairro alagado é conhecido como “Piscinão”. É por onde a água escoa. As vidas são arrastadas, levadas, por que é difícil pensar no outro, reconhecê-lo?

Alguns ficam e choram seus mortos. Mas essa história não acaba aqui, não acaba agora. Ela continua com a próxima chuva, insistente, incessante.

 

Texto escrito para o site Cidadão Cultura, a partir da programação temporada Sesc, apresentado nos dias 11 e 12/03/2017

 

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