Proposição artística: CARNE Uma Narrativa sobre a memória

Direção: Yandra Firmo

Por: Aline Wendpap e Jucelina Ferreira

Em: 26.01.17

 

A demora em escrever sobre “Carne”, provavelmente se deve a indigestão causada pelos assuntos tratados. Entretanto, o preciosismo plástico/artístico foi impecável! Mesmo que, de certa maneira, esse mesmo preciosismo tenha contribuído para essa indigestão.

O silêncio que se instaurou propositalmente, em vários momentos foi o principal gerador de angústias, sobretudo pela relação com os temas abordados. Aliada à imposição do silêncio, percebe-se uma certa inquietação do público, por pensar, talvez, no que estaria por vir…

… no transcorrer do processo, os segundos pareciam intermináveis e o silêncio aflitivo era quebrado, em muitos momentos, apenas pelo barulho do mastigar e ruminar dos pedaços da gordurosa costela, traço revelador do paradoxo da etiqueta à mesa daqueles pertencentes à classe dominante.

Desse modo, o ruminar daquela carne “dura” devorada em cena pela personagem vivida pela guerreira e audaciosa  Yandra Firmo (Diretora e Atriz), que representa a elite embebida em seu mundo particular, caracterizada pelo figurino requintado, elementos de cena luxuosos, que consome coisas e come carne sem parar, permanece nos ouvidos, como que a martelar sobre o desinteresse de uma classe opressora, que faz questão de arrotar, sem nenhum pudor, sua suposta altivez, diante das memórias dos oprimidos. Sem se importar com suas histórias, suas origens e com seus sofrimentos.

A encarnação deste personagem faz-nos lembrar que para esta classe, realmente tanto faz que as vozes caladas, ou melhor, silenciadas, sejam de mulheres torturadas numa cela da ditadura militar, ou vilipendiadas em seu próprio lar e pelo marido. Como é co caso da personagem, interpretada pelo brilhante ator Luciano Paullo, que de tão humana e real apresentou-se quase como uma entidade plena e majestosa; ou de escravos viajando em porões imundos e abarrotados dos navios negreiros, sendo tratados de forma pior do que animais (como o que ganhou vida e voz pela força interpretativa de Éverton Britto); ou ainda de jovens idealistas e sonhadores, que apenas aspiravam por um mundo melhor. Como se pode ver no  trabalho do estreante Ismael Dinis. Ele ocupou seu espaço e fez bonito ao compartilhar o palco com os generosos veteranos do teatro mato-grossense.

Apesar de se tratar de uma obra em processo, a excelente apresentação do dia 07 de Dezembro de 2016, possibilitou ao público presente, muito mais do que a audiência de um espetáculo. Ocorreu, sem dúvida, uma verdadeira vivência de conflitos humanos atemporais, trazendo à cena a “atividade humana, criativa e inovadora […] como uma amplificação de uma intensificação de traços já presentes no mundo físico” como escreveu Prigogine[1] em o fim das certezas. Assim, reitera a insignificância do homem, lembrando-nos de que não estamos no centro do universo e não somos diferentes de outros animais.

O primor dos recursos cenotécnicos empregados contribuem na construção do experimento ao transitar com beleza artística e de forma não linear, por diversos momentos da história brasileira. Também verifica-se neste trabalho cênico o diálogo, com os estudos decoloniais por ser concebido à partir de memórias de pessoas comuns.  A esse respeito, gostaria de recorrer as palavras da pesquisadora argentina María Eugenia Borsani[2] no que se refere ao decolonialismo como aquilo que impulsiona nosso desprendimento epistêmico e político da matriz colonial de poder, calcada na visão eurocentrada do mundo.

 

Por fim, o elo que costura e dá forma a essa construção narrativa coletiva é a constante presença em cena (ressaltada pelo foco de luz perene) de uma aristocracia sórdida. Em sua atemporalidade e devido a se encontrar em um plano superior (inclusive no posicionamento de cena), as mazelas vividas pelo povo, jamais a atinge. Mas, o espetáculo atingiu e afetou muito a nós, o público, pois nos envolvemos pela humanidade dos personagens reais apresentados por suas sofridas memórias.

 

Texto escrito para o blog Parágrafo Cerrado, a partir da programação do projeto Narrativas em cena  apresentado no dia 07/12/2016

[1] PRIGOGINE, Ilya. (com a colaboração de Isabelle Stengers). O fim das certezas: tempo, caos e as leis da natureza. São Paulo: EDUNESP, 1996.

 

 

[2]

BORSANI, María Eugenia. Auscultando la génesis de la violencia: líneas sobre raza y colonialidade. In Dora Elvira Garcia G. (coord.); Trascender la violência: criticas y propuestas interdisciplinares para construir la paz. Disponível em: <<http://www.cecupa.org/trascender-la-violencia>&gt; Acesso em 30.01.2017

 

 

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