Proposição artística: ANDARILHO DAS ESTRELAS – Grupo Tibanaré

Por: Eliete Borges

Em: 05-12-16

 

Um espetáculo andante, diria nômade, proposto pelo grupo Tibanaré. Possui a estrutura de uma apresentação de teatro que em cortejo percorre um determinado trecho da cidade falando com as pessoas sobre medos e desejos de vida. Na apresentação destinada ao Festival Zé Bolo Flo o espetáculo se realizou na Avenida Couto Magalhães na cidade de Várzea Grande. Alí, ao sair da Casa de Artes da Cidade, o grupo cumpriu a apresentação em forma de cortejo parando ora num ponto de ônibus ora adentrando comércios da região, falando e cantando para pessoas nas calçadas e transeuntes que impactados pela cena, contemplavam, uns boquiabertos outros com palmas e vivas e alguns ainda com certo estranhamento típico das intervenções de rua.

O cortejo ao seguir pelas ruas leva um estandarte com o nome do espetáculo e seus integrantes seguem cantando, dançando e falando com as pessoas abordadas ora em linguagem poética, ora em interação vivencial de contexto performático. A boniteza da apresentação, além daquela da interação que se destina às pessoas comuns, passantes, atarefadas com o dia-a-dia, reside sob meu ponto de vista em atingir no contexto da cidade as pessoas em situação de rua, o que foi experienciado com beleza da experiência estética destinada a quem no contexto das cidades tende a ser desprezado pelo sistema de artes e as políticas de cultura e que não raro são retirados dos mesmos eventos.

O diálogo com as pessoas, a atenção de cada uma a ouvir os artistas é algo de notável e revela grande abertura do público para o tipo de trabalho do grupo. A sensibilidade do grupo por sua vez, em abordagens comprometidas com disponibilidade de que cada interlocutor apresentou certamente um diferencial para o aceite e acolhimento, de maneira que o foco da interação, que julgo ser o principal aspecto visado pelo grupo é alcançado com bastante êxito em proporcionar uma convivialidade mesmo que efêmera, bastante intensa do ponto de vista da produção do sentido para a subjetividade, interação como fonte de criação pelo público, caso por exemplo da senhora que dança com um dos artistas, dos moradores de rua que se deixaram banhar pela chuva de folhas secas e da senhora comerciante que contagiada pela música e cortejo parabenizou o grupo mesmo esse não tendo passado em seu comercio.

Acredito que o grupo possui já como marca a interatividade com a rua e que este ponto é bastante potente no sentido de que sua ação – interação joga para longe o contexto automático dos centros comerciais e do condicionamento em pensar a rua apenas como lugar de passagem.

Texto escrito para o blog Parágrafo Cerrado, a partir da programação da 3ª edição do Festival Zé Bolo Flô, no período de 29/11/2016 a 06 /12/2016.

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