Proposição artística: Ouriço, dança, Leonardo França (RJ)

Crítica em processo

Por Beth Néspoli

Luz, corpo e som são materialidades que se movimentam pelo espaço compondo uma tríade autônoma em Ouriço, criação do performer Leonardo França, que integra a programação da Aldeia Guaná. Não por acaso, num gesto nada usual, o performer apresentou o operador de luz Nando Zâmbia e o responsável pelo desenho sonoro João Millet Meirelles na abertura da apresentação. Se a atitude provoca alguma surpresa, logo a arte justificará tal ato, uma vez que iluminação e trilha sonora não são complementares à coreografia, mas equivalentes, trabalhadas com o intuito de alcançar a mesma força expressiva dos movimentos de dança para afetar os sentidos do espectador.

De início, o corpo nu de França ganha centralidade, sem que luz e som percam autonomia, uma vez que ele não dança ‘acompanhado’ por tais elementos, mas com eles. A luz, baixa, ora fragmenta o corpo deixando visíveis partes dele, ora valoriza um objeto posto sobre a cabeça, uma espécie de cocar-cabeleira, cuja imagem remete à Medusa, em especial quando os efeitos da luz ampliam a ondulação das franjas dando a ilusão de movimento autônomo.

Subitamente, em alteração radical, o performer se imobiliza num canto e abre espaço para que o espectador ocupe seu lugar na aludida tríade. Na primeira parte o corpo de França era matéria atravessada pelo som e servia de anteparo para a luz. Na segunda, duas imensas caixas, colocadas uma de frente para a outra, passam a emitir sons ásperos e de altíssima intensidade, tornadas quase dois ouriços dardejando espinhos ruidosos. Aí é a vez do corpo do espectador sentir o som penetrando na carne, empurrando pele e pelos.

Em seguida, a luz entra em relação e surge uma ilusão de movimento na arquibancada oposta – o desenho do palco é de pista retangular com plateia nas laterais, o que faz dos espectadores de um lado parte da cenografia do outro, e vice-versa. O efeito produzido é de fricção entre a sensação da própria carne carregada de energia estática sendo literalmente tocada pelo som em contraponto com o movimento da luz que faz os corpos visíveis à frente dançarem no ar.

Leonardo França não apenas realiza um experimento com a materialidade de som, luz, corpo e ar – na reta final do espetáculo quando faz um objeto dançar empurrado por uma espécie de ventilador de mão – como também propõe tal experiência ao espectador. E cumpre a expectativa anunciada: Ouriço acontece a partir de “relações improváveis” entre materialidades e atividade receptiva.

– Texto escrito em oficina de crítica no âmbito do projeto Cena em Questão, no Sesc Arsenal (Cuiabá-MT), a partir da programação da Aldeia Guaná, no período de 13 a 17/9/2016.

 

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