Proposição artística: Maiêuticaworking in progress, Raquel Mützenberg (MT)

Crítica em processo

Por Thereza Helena

 

Performance? Formas animadas? Teatro? Dança? Instalação? Vídeo arte? Em consonância com a ideia de experiência desenvolvida pelo crítico francês Nicolas Borriaud, chamaria a obra Maiêutica, performada pela jovem artista Raquel Mützenberg, dirigida por Luiz Marchetti e com edição de vídeo de Juliana Segóvia, de uma duração a ser experimentada. Não por necessidade de encaixar a produção em uma das já conhecidas plataformas artísticas. Antes, pela metalinguagem constituída por meio do diálogo entre áreas artísticas distintas, sem hierarquia no grau de importância, que faz nascer um experimento genuinamente híbrido.

 

As fronteiras entre o que é o começo ou o fim, tanto da narrativa específica do trabalho quanto dos campos artísticos envolvidos na criação, já começam dissolvidas entre a ação performática, o corpo que dança, e um peixe-beta vivo que integra a equipe do espetáculo. Esses elementos utilizados pela artista carregam em si próprios lugar para que aconteça o encontro e contaminação de materiais: a boneca construída com a técnica híbrida guarda espaço para que Raquel acomode seu corpo dentro do corpo desse objeto. Assim elas cedem partes uma a outra para que ambas passem a exercer nova existência – uma existência híbrida.

 

Embora contenha pequenos blocos de textos com teor aparentemente confessional capazes de conformar ideias a respeito de pesadelos, de um possível aborto e de relações com o corpo de mulher, nada indica que a produção de sentido se dê no âmbito do raciocínio lógico, mas das sensações e afetos despertados durante o momento da experiência. Esses aspectos contribuem para o entendimento de que a obra não é um exercício de dramaturgia linear e quadros previsíveis, mas exercício da emoção.

 

Desse modo, Maiêutica faz pensar no conceito de economia do ator, defendido por Valère Novarina em Carta aos atores, que diz respeito à paixão do público por economia, termo por ele definido pelo modo como o ator se gasta durante todo o espetáculo. Assim, o espectador desejaria ver as diversas maneiras de como o ator pode se gastar em cena. Pode-se dizer, ainda com Novarina, que “o ator não está no centro, ele é o único lugar onde tudo aquilo acontece e é só”.

 

Assim pode-se considerar que Raquel, sendo o centro dos acontecimentos, se gasta ou se desgasta em cena de maneira genuinamente potente e híbrida.

 

– Texto escrito em oficina de crítica no âmbito do projeto Cena em Questão, no Sesc Arsenal (Cuiabá-MT), a partir da programação da Aldeia Guaná, no período de 13 a 17/9/2016.

 

 

 

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